6 HORAS INTERNACIONAIS DE NOVA LISBOA          6 de Agosto de 1972

 

Uma das provas mais importantes do calendário Angolano era disputada nas ruas da cidade de Nova Lisboa, num circuito incrível que alternava uma recta com mais de um quilómetro com curvas em gancho, subidas, descidas, mau piso, passeios, árvores e sacos de areia. Não admira que nessas condições se destacasse o andamento dos pilotos mais competitivos e... corajosos. Para a edição de 1972, o Sporting Clube do Huambo conseguiu reunir um plantel de grande qualidade, onde pontuavam alguns especialistas estrangeiros ao volante de carros de topo. Referimos as presenças dos dois Lola T290 FVC de 2 litros, do Team Bonnier, entregues a Gérard Larrousse/ Vic Elford (a mítica equipa de pilotos de rali da Porsche que também era exímia aos comandos dos Porsche 917 no mundial de marcas) e a Claude Swietlick / Nicha Cabral. Esta dupla também tinha algumas possibilidades de brilhar até porque o piloto suíço tinha vencido um mês antes o circuito de Vila Real e devia ter o moral no ponto mais elevado.  Também com Lola, mas do modelo T280 DFV de 3 litros, vinha o Team BiP, com Carlos Gaspar a partilhar a condução com João Carlos Ferreira de Moura. Conhecido das corridas portuguesas, Roger Heavens inscreveu o seu Chevron B21 FVC, ainda com a pintura "tipo Team Bip" com que o carro tinha alinhado na Rampa da Penha no mês de Julho. Para acompanhar o britânico estava Carlos Santos que abdicou assim de alinhar com o seu Porsche 907 preparado pela Garagem Aurora. Também de Porsche apareceram alguns concorrentes, nomeadamente André Wicky que trouxe três modelos diferentes; um 907 para os brasileiros Norman Casari / Jan Balder, um 910 para Jean-Pierre Aeschlimann / Phillipe Carron e por fim o seu conhecido 908/2 para ele prórpio e para o seu amigo marroquino Max Cohen-Olivar. Emílio Marta inscreveu o habitual Ford GT 40 para ele e para Herculano Areias e Ivon Brandão e Cardoso Albernaz escolheram um Porsche 911S Targa para alinhar nesta prova de endurance africana. Havia ainda um Lotus Europa , mas os restantes pilotos locais corriam em carros de Grupo 1 e 2, como era o caso do Opel Manta de Helder de Sousa, do BMW 2002 de Mabílio de Albuquerque ou do Ford Capri 2600RS de Larama. Teixeira da Silva estava inscrito juntamente com Rolf Stommelen, mas o motor do muito competitivo Ford Capri RS de Grupo 2 não foi montado no carro a tempo para a prova. Ou, mais precisamente, conforme nos conta o Director da prova, Armando de Lacerda: "O motor de fábrica para o Ford Capri do Teixeira da Silva chegou a tempo, pois foi de avião para Luanda e ali foi alugado um táxi aéreo para o transportar para o Huambo. As dificuldades burocráticas levantadas pelo director da alfandega, alegando que esta se encontrava fechada  e só na segunda-feira se poderia proceder ao desalfandegamento, é que impediu a sua participação...".

Ainda sobre a malograda participação da equipa do Capri, continua a recordar Lacerda: "O Rolf Stommelen esteve efectivamente inscrito na prova, mas não chegou a deslocar-se a Nova Lisboa. Quem ali esteve para o substituir e fazer equipa com o Teixeira da Silva foi  o Mané Nogueira Pinto e não chegou a alinhar por causa da referida falta de motor. Curiosamente, a representar a Ford Alemã quem esteve presente a assistir aquela prova foi o Domingos Piedade".

 

Treinos

Os treinos deram as primeiras indicações de hierarquia, com o Lola de Larrousse e Elford destacado na frente, seguido de Swietlick e Cabral e do T280 de Carlos Gaspar. No entanto, os pilotos dos protótipos queixavam-se da qualidade do piso que sacrificava muito as suspensões deste tipo de carros.

 

1- Lola T290 FVC        Larrousse / Elford            1:43.89

2- Lola T290 FVC        Swietlick / Cabral             1:45.69

3- Lola T280 DFV        Gaspar / Ferreira             1:47.81

4- Chevron B21          Heavens / Santos            1: 51.24

5- Porsche 907           Casari / Balder                 1: 54.10 

6- Porsche 910           Aeszhlimann / Carron     1:54.57

7- Porsche 908/2      Wicky / Olivar                   1: 55.86

8- Ford GT40              Marta / Areias                   1:57.63

9- BMW 2002             Mabílio / Bandeira            1:58.23

10- Capri RS              Larama / Waldemar         1:59.80

(...) 

 

  

Roger Heavens ao volante do Chevron B-21 que partilhou com Carlos Santos e com o qual venceu estas 6 Horas de Nova Lisboa. Este mesmo carro tinha corrido um mês antes na Rampa da Penha, com Carlos Gaspar ao volante e com o patrocínio do Team Bip, razão pela qual guardou a pintura vermelha e branca que apresentou em África.

 

Corrida

Quando no procedimento da partida lançada (ou tipo Indianapolis, como se dizia na altura) o carro do director se afastou para da início às 6 Horas, os dois Lolas amarelos de Larrousse e Swietlick tomaram o comando das operações, seguidos por Carlos Santos (B-21), Cohen-Olivar (908) e Gaspar (T280). Aos poucos, os dois carros da frente foram ganhando algum avanço, seguidos por Gaspar que passara para terceiro e por Santos e Olivar, em luta pela 4ª posição. Ao fim de 33 voltas, Gaspar já tinha perdido uma volta para os primeiros, o Porsche 908 de Olivar e  Wicky estava a duas voltas e ainda em disputa com o Chevron. Depois vinham Casari, Marta e Aeschlimann.

Os problemas começaram a surgir para os carros da frente. Primeiro o 907 foi às boxes com o radiador de óleo furado e com o pára-brisas sujo. Voltou à pista em último lugar. Um pouco mais tarde o Lola T280 BiP encravou a caixa em 2ª velocidade e quando parou nas boxes verificou-se ter também problemas de ignição e motor de arranque. Ao fim de uma hora e meia de prova começaram os reabastecimentos e após estas operações, o Lola de Cabral passou para o comando, seguido de Elford/Larrousse, de Wicky /Olivar (brilhantes com o velho 908 a apenas uma volta dos primeiros) e de Carlos Santos /Heavens, já a cinco voltas dos comandantes. Outra excelente demonstração era dada pela equipa francesa do Porsche 910 que ao fim de três horas de prova já estava na 4ª posição , na mesma volta do 908 do seu chefe de equipa que começava a apresentar problemas de embraiagem. Por esta altura o ritmo dos concorrentes tinha baixado um pouco, exceptuando o caso de Carlos Santos que alcançou o terceiro posto e de Brandão e Albernaz que fazem um esforço para alcançarem o Capri de Larama com o seu original Porsche Targa.

Após a passagem das 4 horas de corrida, Swietlick parte um triângulo da suspensão do Lola e vem à box, a pé, dar conta da ocorrência. Nicha Cabral resolve ir ao local e trocar ele próprio a referida peça, sob a orientação dos mecânicos que não podiam tocar no carro. Com esta operação pode continuar em prova mas caiu para o 9º posto da geral. À entrada da 5ª hora, o outro Lola T290 ainda comandava destacado, seguido de Santos, Larama e Brandão. O Porsche de Wicky (ao volante do qual Cohen-Olivar era muito mais rápido) voltou à pista sem a porta esquerda e com um cabo de embraiagem a passar pelo espaço agora aberto.  A quinze minutos do fim, aconteceu o que já era inesperado: o motor FVC do Lola de Larrousse e Elford partiu e o carro foi obrigado a parar no circuito. Das boxes fizeram sinal a Heavens para rodar o mais depressa possível para tentar recuperar nesse tempo as voltas de atraso que tinha em relação ao carro do Team Bonnier. E de facto viria a conseguir, sendo declarado vencedor destas Seis Horas. Em segundo ficou classificado o Lola e em terceiro a primeira equipa local, o Capri RS2600 do Team Mocar, com "Larama" e Waldemar Teixeira. 

 

Classificação

1- Chevron B21          Heavens / Santos           

2- Lola T290 FVC        Larrousse / Elford           

3- Ford Capri RS         "Larama" / W.Teixeira

4- Porsche 911 S        Brandão / Albernaz

5- Lola T290 FVC        Swietlick / Cabral            

6- Porsche 908/2      Wicky / Olivar    

7- BMW 2002             Mabílio / Bandeira                   

8- BMW 2002             Oliveira / Coelho                

9- Ford Capri             T.Pereira / "Dio"          

10- Subaru 1300G    S.Peras / H. Cardão

 

VMR:   Gérard Larrousse - Lola T290 - 1:42.40

 

   Os dois primeiros classificados no gancho ao fim da recta grande

     Lola T290 FVC de Vic Elford e Gérard Larrousse  (foto: Joaquim Cepeda, via JMF)

     O melhor dos participantes angolanos foi este Ford Capri RS2600 do Team Mocar, cuja condução foi dividida por "Larama" e Waldemar Teixeira. Na imagem é seguido pelo Lola T290 de Vic Elford e pelo NSU TT1200 de José Viegas e João Reis.

  Porsche 910 "Spyder" de Jean-Pierre Aeschlimann e Phillipe Carron   (foto: Joaquim Cepeda, via JMF)

    O Lola T290 FVC de Swietlick e Cabral

    Problemas diversos levaram ao abandono do Lola T280 DFV do Team Bip

     Outro aspecto do Lola de Carlos Gaspar e Ferreira de Moura.   (foto: Joaquim Cepeda, via JMF)

     O piloto marroquino Max Cohen-Olivar foi brilhante ao volante do velho Porsche 908/2 de André Wicky. Olivar é um dos raros pilotos desta época que ainda se mantém em actividade em 2007, tendo participado na prova da Challenge d'Endurance Moderne VdeV que se disputou no Estoril, no final de 2006.

   Boa prova de Ivon Brandão e Cardoso Albernaz ao volante de um original Porsche 911S Targa, vencedor dos Grupos 3 e 4.  

    Outra foto do Porsche 911 S Targa, um modelo poucas vezes presente nas competições nacionais.  (foto: Joaquim Cepeda, via JMF)

    André Wicky cedeu o seu Porsche 907 aos brasileiros Casari / Baldi que rodaram em muito bom nível até ao momento em que o carro deixou de colaborar.

 

   Plano do circuito de Nova Lisboa

 

Para concluir este relato transcrevemos parte de uma missiva que Armando de Lacerda nos enviou a propósito deste evento:

 

"Pede-me para escrever alguma coisa sobre as "6 Horas" e gostaria
muito de o fazer. Mas falar de quê ? Há tanta coisa.


     De todos os obstáculos levantados até conseguirmos a inscrição
na FIA como prova internacional livre ( a  primeira no Ultramar)?


     Das dificuldades em conseguirmos o transporte aéreo dos carros?


     Dos ataques para que a prova perdesse a autonomia que tinha e,
assim, o prestígio que estava a alcançar?


     Das dificuldades em investir numa prova automóvel, num clube cujo
principal objectivo era o futebol?


     Foi um período curto mas muito rico e que valeu a pena viver e de
ter tido a honra de coordenar uma excelente equipa. Trabalho compensado
quando tivemos a alegria de ver  que, no Anuário da FIA de 1973, já constava
o traçado do circuito das "6 Horas" e o Sporting Clube do Huambo já
figurava como organizador internacional reconhecido"

 

         (foto: Joaquim Cepeda, via JMF)

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Texto: Ricardo Grilo a partir de uma reportagem da revista Equipa e das memórias de Armando de Lacerda. Revista Equipa gentilmente cedida por Helder de Sousa. Fotos: revista equipa e Joaquim Cepeda .

 

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